Os olhos que vi


"Esse menino é adotado, mas nunca me deu felicidade"
Ainda ecoa a frase em meus ouvidos, quase como um mantra que se repete involuntariamente em minha mente.
Como tem sido habitualmente, apresenta-se uma mãe com um filho. O diagnóstico ou veredicto já, antecipadamente, consumado não poderia ser outro: "esse menino é hiperativo"
Não quero me prender a esse diagnóstico, que já se tornou mais um alvo de modismos psicopatológicos. Mas chamou atenção a frase que ouvi.
Primeiramente, se dividirmos a frase "esse menino é adotado, mas nunca me deu felicidade" seria possível algumas interpretações a respeito.
Você adota uma criança para dar-lhe felicidade ou o contrário?
Quando você adota uma criança é obrigado ou o faz voluntariamente?
Se você adota uma criança, acha que tem realmente direito de fazer esse tipo de cobrança?
Quais as formas de se conseguir felicidade, principalmente nesse relacionamento?
Assim, as perguntas vão surgindo e, como um gêiser, fazem entrar minha mente em ebulição.
Mas, há um adágio popular que diz: "o que os olhos não vêem, o coração não sente". Infelizmente meus olhos viram e meu coração sentiu.
Vi o sentimento nos olhos dessa criança ao ouvir a frase da mãe. Não preciso descrever a tristeza.
E, surpreendentemente...ou não, no mesmo instante que seus olhos clamavam por compaixão, exclama: "ahh, poxa!" e abraça a mãe com carinho.
O que você espera ao presenciar todo o diálogo, a cena, os olhares e os sentimentos que se escancaram nestes olhares?
E, após muitas perguntas direcionadas aos dois e muita observação, o gêiser mental inicia sua nova erupção de questionamentos.
Quem dos dois estaria precisando de mais ajuda nesse momento?
Todos os comportamentos de inquietude dessa criança não seriam uma maneira de conseguir atenção dos pais para si? Não seria uma maneira de conseguir o afeto que sempre desejou?
Notadamente era um garoto muito esperto, extrovertido e comunicativo. Mas um olhar, mesmo que de relance, diz tudo. Sim, tinha, por vezes, aquele olhar de tristeza, de vazio.
A mãe dizia: " você acaba com seu pai que está doente. Ele não te aguenta." E o filho respondia com um sorriso amarelado: "mas eu amo meu pai, assim como te amo. Mas às vezes não sei demonstrar o que sinto"
Enfim, creio que seria uma verdadeira aula sobre os relacionamentos humanos e todos os seus sentimentos e emoções possíveis....ou impossíveis.
Amar, ou dizer que ama pode ser muito mais fácil do que demonstrar o verdadeiro afeto. Contudo, a dificuldade em demonstrar um afeto não significa sua ausência ou o minimiza.
Avaliar nossos desejos e anseios diante de um filho pode ser muito mais complicado do que parece, principalmente quando os projetamos como verdades incontestáveis ou inegociáveis.
E, como se saltasse de dentro daqueles olhos, pequeninos olhos que vi, Cecília Meireles falando:
"E minha alma, sem luz nem tenda,
passa errante, na noite má,
à procura de quem me entenda
e de quem me consolará..."

Comentários

BLOGZOOM disse…
Eu fiquei chocada. A principio nem acreditei, ia perguntar se era verdade. Mas vemos tantas coisas...

Eu tenho uma sobrinha hiperativa, o que ela tinha, na infancia, de eletrica, um verdadeiro motorzinho, tinha de alegria. Nunca seus pais a repreenderam por nenhuma travessura (normalmente extrema...).

Quando se adota, se faz por um maior ainda maior. Abri o coração, a casa, a familia, para alguem que não tem nada, nem mesmo esperança. Deixar de ser a esperança para uma criança é uma temeridade.

Amigo, beijos
Unknown disse…
Eu tenho um problema.
Eu tenho dificuldade pra enxergar que por trás do médico existe um homem.
Um médico é como se fosse alguém intócavel pra mim.
É como se o que ele exercesse fosse tão grandioso que o protegesse de vivenciar certas emoções tão comuns aos demais humanos.
Daí quando me deparo com um texto desse...fico assim, embasbacada.