VALORES - imposições e escolhas

Houve uma época na qual os educados senhores abriam a porta de seus carros para que a dama pudesse entrar. Os homens eram gentis.
Houve época na qual os gentis senhores levantavam-se da cadeira, assim que sua dama chegasse ou saísse da mesa. Os homens eram polidos.
Houve um momento, na história do ser humano, na qual a polidez era característica primordial da espécie.
Naquela época se falava: “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”, “como vai”, “tenha um belo dia”, “prazer em conhecê-lo(a)”, “por favor”, “obrigado”.
Naquela época também as damas sabiam ser valorizadas por sua graciosidade e discrição.
Também nessa época, a sexualidade era algo exclusivamente pertencente àquela pessoa, sem necessidade de propagandas ou alusões à promiscuidade.
Obviamente, mesmo naquela e em tantas outras épocas, havia a deselegância, a desonestidade e todo tipo de atitude associada ao caráter individual.
Entretanto, o pior cenário contemporâneo não é a encenação de tantos atos insanos e de tanta ausência de honradez.
Vai além. Pior do que isso é a normalização e a banalização da moral e da ética.
Heráclito de Éfeso ( s VI – V a.C. ) definia o caráter como “o conjunto definido de traços comportamentais e afetivos de um indivíduo, persistentes o bastante para determinar o seu destino”.
Assim, quando a tônica social legitima e minimiza os desvios de caráter, estabelece uma nova configuração dos valores éticos e morais do indivíduo ou da sociedade.
O caráter individual fica reprimido diante dessa nova moral social.
Chega-se em uma época em que ser correto, honesto ou elegante é motivo de chacota.
Nessa época, o gentil cavalheiro, ainda tentando resgatar uma identidade de outrora, pode ser um “otário” diante de outras pessoas, assim como a dama que ainda tenta manter a tradição e o aprendizado familiar.
Hoje, há exclamações de espanto quando alguém devolve uma mala de dinheiro encontrada ao acaso. Mas, em contrapartida, já não há o mesmo espanto quando o indivíduo se apropria do dinheiro alheio.
Inversão dos valores?
A sociedade impõe regras que nem sempre são digeríveis.
Houve uma época em que os pais sabiam o que era melhor para seus filhos. Hoje, tudo que foi aprendido como forma de educação naqueles tempos tenta ser descaracterizado e classificado como inadequado.
Inadequado??
Moral da história?
Acabou a moral e a ética na sociedade atual?
O caráter individual ainda consegue prevalecer diante deste caos?
A sociedade ou os controladores sociais ainda nos permitem pensar?
Até quando pensaremos que realmente pensamos?
Até quando seremos detentores dos próprios sentimentos e emoções?
Até onde você conseguirá fazer questionamentos dentro do contexto atual?
E para finalizar: em que época você vive ou sobrevive?
Por sinal, não se trata de um texto deselegante ou ranzinza, mas, sobretudo, uma réstia de apego ao que vale a pena.
Como disse Clarice Lispector:
- “Não me prendo a nada que me defina. Sou companhia, mas posso ser solidão. Tranquilidade e inconstância, pedra e coração. Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono. Música alta e silêncio. Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser. Não me limito, não sou cruel comigo! Serei sempre apego pelo que vale a pena e desapego pelo que não quer valer… Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Ou toca, ou não toca.”


Comentários

BLOGZOOM disse…
Semana passada, peguei um onibus com minha filha e sentamos separadas, porque os fortes marmanjos não tinham desconfiometros.

Então chegou uma moça com um bebezinho no colo de uns 8 meses, procurando "seu banco" - banco especial.

Tinham fortes marmanjos sentados e se fizeram de mortos.

Eu me levantei e cedi o lugar.

Andei quadras e quadras para poder enfrentar o engarrafamento sentada. Mas nao podia me fazer de cega.

Bom... ao menos, conversando com ela, disse em palavras "moderadas" que ali só tinham moças... e nem se importaram.

O que falar sobre educação, civilidade e gentileza... acabaram.

Bjs
É amigo,

A informação devorou o homem comum. Porque não foi precedida de Formação. Hoje, o que se busca são pílulas mágicas.

Ninguém quer meditar por horas ou ler um livro que dê uma mínima pista, sobre si próprio ou sobre o Humano. Um artigo de poucas linhas pode ser a Verdade, suficiente para hoje. E lido na transversal.

Todos querem a pílula mágica. Obesos querem o mundo fashion sem tempo ou esforço, impotentes e ejaculadores precoces querem a virilidade e a medalha de Don Juan sem nem mesmo reconhecerem-se nos corpos de seus amores, neuróticos (todos nós) pleiteiam a sanidade criando uma Virtualidade Real, sem nunca passarem pelas dores do parto de um ser, gestado nos divãs esquecidos dos consultórios.

Não há tempo. Tal qual nossa ficção maior, nos tornamos absolutos. Mas, por conta de descuidos e falta de tempo, um reflexo empobrecido no espelho; e somos todos Ausentes (para nós mesmos), Impotentes (em relação ao todo) e totalmente Inconsequentes (em relação às nossas crias).

Complicou. E pra descomplicar, agora, só um grande choque. Na Europa já começou. Quem sabe, daqui há alguns anos, saibamos de fato o verdadeiro valor e preço de um IPhone?

Abraços