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Sem espaço para diferenças

EDWARD – “MÃOS DE TESOURA”

A história de Edward é um clássico exemplo de alguém que foi retirado de seu habitat e tenta se ajustar a outro. No entanto, o espaço social que ele passa a ocupar é o mesmo. Ele não se surpreende com o uso de roupas, pois sabe como colocá-las, sabe o que são talheres e outros objetos, pois seu inventor o ensinou. É o contato social ao qual não está acostumado que torna tudo difícil.
Edward possui a índole de uma criança. Tudo no mundo lhe é novo, agindo de maneira inocente e sincera, causando empatia com o seu público infantil que o aceita sem julgamentos. O filme é uma verdadeira incursão no mundo adulto, um lugar de julgamentos e nem sempre de aceitação. Partindo do ponto de vista com o qual qualquer criança pode se identificar, ou seja, uma batalha cotidiana contra um prato de comida percebe-se algo de meigo em Edward, quando ele se senta à mesa com a sua nova família e trava uma difícil luta para comer uma ervilha. Porque comer uma ervilha? Para que serve? Essa associação de símbolos também se faz muito presente, quando o personagem de Alan Arkin ( o pai ) oferece uma bebida alcoólica a Edward falando que é limonada , enganando-o, e ele passa mal. Quando outro personagem oferece-lhe limonada ele imediatamente associa com a situação anterior e sente-se mal sem nem experimentar a bebida. Esse universo de signo e significado é característico do mundo infantil e, por isso, na alfabetização os nomes ensinados às crianças fazem toda a diferença no seu entendimento do mundo.
As personagens se aproveitam de um “dom”, daquilo que torna Edward “especial” quando lhes é interessante, conveniente. Programas de TV exploram esse “diferencial”, criando “glamourização” do indivíduo diferente, tudo é produto. O conceito de dinheiro e do Capitalismo também é abordado. O pai da família (Alan Arkin) questiona Edward por aceitar biscoitos em troca do seu trabalho( “não se pode comprar um carro com biscoitos, não é mesmo?”), ele diz. Seu objetivo para Edward é que esse forme um negócio, ganhe dinheiro e trace uma trajetória linear, imposta para o homem desde o dia em que ele nasce.
O filme também abre uma discussão sobre ética na cena em que a família de Edward tenta ensiná-lo o que é certo e errado na sala de jantar. Tim Burton apresenta aqui um mundo confuso ao qual as crianças estão sendo introduzidas, onde nem tudo é branco e preto e é difícil classificar as coisas, determinando o que é certo ou errado. Vale lembrar, nessa discussão, a imposição da sociedade, determinando suas trilhas para o curral ( gado ).
Mas, o suposto “monstro” coloca em desequilíbrio o “perfeito” mundo do subúrbio ( de cores vivas, fortes e, a ao mesmo tempo, frias, representando a vida fútil, mecanicista. Vidas extremamente vazias e desprovidas de um significado maior ) e a partir dessa introdução de um personagem estranho àquele meio, a verdadeira personalidade das pessoas passa a aflorar. Sua trajetória sofre uma curva, de idolatrado a desprezado/odiado. É o sujeito deslocado ou “desajustado”, constantemente à procura de seu próprio caminho em um mundo hostil, que não se encaixa nos moldes da sociedade, excluído, “estranho”.
O estranho causa fascínio, algo proibido e misterioso que a princípio atrai a população. Através de sucessivos enganos ele acaba sendo alvo de perseguição e todos os males do subúrbio, que agora passam a aparecer, são culpa do “intruso”. As pessoas gostam de julgar externo algo que eles próprios podem ter causado, não se julgando responsáveis, pois na sua perfeita vida mecânica não há espaço para erros ( somente o outro é errado ). Aqui o enclausuramento de Edward é relativo, pois o bairro no qual passa a viver também é isolado do resto do mundo e, por conseqüência, são todos alienados.
A publicidade que permeia nosso cotidiano também é retratada no filme. Ter certa aparência, possuir certos bens é o que define o ser humano. O homem acaba adotando uma posição fria em relação à vida, o que o aproxima de uma máquina.
O que faz um ser humano? Uma conta no banco? Edward não faz parte do sistema, sua existência é ignorada, até então ele não conhecia as exigências desse mundo chamado “civilizado”. Em seu mundo, escuro e isolado, não havia exigências. Ele não dependia de dinheiro ou qualquer outra coisa, o que não o impossibilitava viver, simplesmente, VIVER.
No mundo “civilizado” não há espaço para a diferença.
A diferença torna-se um inconveniente. Deve ser julgado e condenado ao exílio, ao extermínio.
Não há espaço para simplesmente viver.
Num mundo calculado será presa fácil, justamente por não ser alguém propenso ao oportunismo e aos cálculos vivenciais. Ele foge novamente para seu castelo....
Enfim, o filme consegue retratar e criticar, fantasticamente, amplos aspectos, como a exclusão e julgamento do das “diferenças”, consumismo capitalista, imposições do ritmo de vida moderna, massificação do Ser humano, exploração da inocência, desejos irrealizáveis.

Vale perguntar: Quem é o “monstro” ?? Quem tem paz??

Comentários

Vida*** disse…
Não podemos fazer muito sobre a extensão de nossas Vidas,mas podemos fazer muito sobre a largura e a profundidade delas. (Evan Esar)Não é pela casca que queremos ser conhecidos,queremos é ter um relacionamento intimo com tdo e com tdos que nos cercam.Nós os sensíveis somos invencíveis pelas lágrimas e imbatíveis pelo sorriso.(Amor,União,Persistência).Paz e Luz sempre em nosso caminhar.

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