Pular para o conteúdo principal

Íntimos caminhos


"Somos quem não somos e a vida é pronta e triste. Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam em nós... pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção!...Quem sabe sequer o que pensa ou o que deseja? Quem sabe o que é para si - mesmo?" (fragmento de LIVRO DO DESASSOSSEGO -1914- BERNARDO SOARES)



Bernardo Soares foi um tipo particular dentre os heterônimos do enigmático e extraordinário poeta português Fernando Pessoa. O que interessa na prosa fragmentária que Bernardo Soares desenvolve é a dramaticidade das reflexões humanas que vêm à tona, à beira do tédio, do trágico. Por essa razão, diversos fragmentos do livro são investigações íntimas das sensações provocadas pelo anonimato, pela cotidianeidade e todo o pragmatismo da vida comum. Estudiosos discutem por que Fernando Pessoa teria criado seus heterônimos. Seria esquizofrenia? Psicografia? Uma forma de expôr seus sentimentos? Distúrbio de Personalidade? De certo, sabemos que sua genialidade é grande demais para caber em um só poeta. Mas quero aproveitar  este pensamento, também "desassossegado", e questionar:

O que move o Homem? 
Qual sua razão existencial?
Qual o motor propulsor de sua vida?

Em geral colocamos no rosto uma máscara e somos outro aos olhos de quem nos olha. Mas, de súbito descobrimos que, por trás da máscara, não sabemos quem somos. Você, por algum momento, já refletiu sobre a sua importância? Quem é você? Ou prefere simplesmente viver, confortavelmente, sem questionamentos, nessa vida de gado (ouça a música “admirável gado novo”, de Zé Ramalho). Fazendo uma analogia à Mitologia da caverna, de Platão, você imagina-se conhecedor de tudo, enquanto, na verdade, busca conhecer minuciosamente cada parte (por menor que seja) de “sua caverna”, sem jamais vislumbrar seu exterior. Quando você passa a questionar, imaginam-no um excêntrico, um idiossincrático, um extravagante, quando não um rematado louco (destino comum à maior parte dos cientistas, inventores, e demais revolucionários do pensamento que, ao longo da história, ousaram ir além, ultrapassar os limites mesmo pagando alto preço pelo que a sociedade considera loucura).
Talvez a melhor tática seja se fazer criança. Afinal não é nada mal fazer perguntas. Muito pelo contrário, crianças costumam fazer muitas perguntas construtivas, profundas, que demonstram o quanto estão interessadas no assunto. Mostram que pensam por si mesmas, que não têm medo de desafiar velhos conceitos, velhos sistemas de crenças, antigos mitos, e que estão prontas para penetrar em territórios novos, avançar para novas fronteiras.



Parafraseando Fernando Pessoa: “não sei o que o amanhã trará, mas sei que posso e devo tentar fazê-lo diferente de tudo que poderia ser."

Comentários

*lua* disse…
Quando se é criança, mas lá que cá, elas possuem o dom da verdade e querem saber a verdade, quando se vai ficando adulto, absorvemos toda a mentira do mundo e muito pior, e assim ignoramos nossa alma, temoa té medo de olhá-la, é preferível olhar para a do outro.

beijo grande, adorei o texto!

PS: Gosto de suas impressões, não desfazendo dos grandes pensadores/filósofos, porém, é sempre um meio mais fluido para reconhecimento do outro por trás de uma tela de computador.
Jorge disse…
Grande PD,

grande texto.
usamos máscaras justamente por não nos conhecermos ou também por não querermos ser nós mesmos. Não devemos nos esquecer que, ao buscarmos a nós mesmos, estamos indo de encontro, além da nossa luz, do nosso lado sombra. Quem poderá suportar este lado, conscientemente? Uma questão para se refletir, não acha?
Quando criança, ainda não construimos as nossas máscaras, por isso sermos sinceros, o que nos fazia muito felizes.

Um grande abraço!!!
ValériaC disse…
Amigo, belo texto você nos trouxe para refletirmos.
Quem dera fôssemos como as crianças que tem coragem de serem elas mesmas o tempo todo.
Esta deve ser nossa corajosa busca neste viver...só ganharemos com isso.

Um grande abraço
Valéria
Mr.Jones disse…
Por isso que sou intragável para muitos. Pela razão dessa tática "Talvez a melhor tática seja se fazer criança"
Por isso que sigo sempre sorrindo e amando muito.
comentei la tb
Jeanne Geyer disse…
Acho de apesar da personagem atual (desta encarnação) estou descobrindo um pouco quem sou.
Um pouco.
Gosto demais do Fernando Pessoa, justamente pelo tom dramático que ele dá aos seus textos, me identifico demais.
Tem um selinho pra ti lá no blog, Beijos :)
Atena disse…
Este é exatamente o motivo de ter criado o meu blog: levar as pessoas a refletir mais e se autoconhecer.
Belo texto.
Insana disse…
lindas palavras em forma de sentimento.

Bjs
Insana
*lua* disse…
Oi querido,
Hoje postei um vídeo e faço questão que amigos tão queridos como vc o veja, quero que seu coração seja tocado só por hoje, como permiti o meu!!

beijos
Jorge disse…
Meu amigo PD

tem um selo prá você no meu blog, tá bom?

Um abração!!
Vida*** disse…
Parabéns,pela tela de fundo!! Trouxe mais leveza e harmonia!! Boa Tarde,Abços de Luz!!

Postagens mais visitadas deste blog

Velhos Tempos

Tudo muda.... Houve um tempo em que se pedia “a benção” aos pais quando se acordava pela manhã ou se deitava para dormir, assim como antes de sair de casa. Hoje os filhos nem sabem o que significa pedir “a benção”, Afinal mal falam bom dia ou boa noite. E para sair de casa nem precisam falar aonde vão. Um filho, nesse tempo, referia-se aos pais ou pessoas mais velhas como “Sr” e “Sra”. Hoje os filhos se referem aos pais ou pessoas mais velhas como “Você”, Afinal nem sabem o significado de um pronome de tratamento respeitoso. Houve um tempo que não se falava enquanto adultos estivessem falando. Hoje os filhos falam enquanto os pais se obrigam a ficar quietos, Afinal nem sabem o que é ouvir. Os filhos, certamente, compreendiam o olhar recriminador de seus pais. Hoje se um pai lança um olhar recriminador ao filho, Passará despercebido ou ouvirá: “que cara feia é essa, velho?” Houve um tempo em que um filho pedia, por favor, ou “eu posso?” Hoje um filho não pede, por favor, e

Vivemos esperando

Novamente estamos nos aproximando de mais um final de ano. É impressionante como o tempo está passando rápido. Diria mesmo que está "voando". Essa constatação nos faz refletir sobre aquele velho dito popular: "Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje". Seja feliz, não espere que amanhã seja melhor. Torne hoje seu dia o melhor. Não perca tempo com situações estressantes. Não dê atenção àquilo que bloqueia sua felicidade. Não crie dificuldades para sua felicidade. Ser feliz é muito fácil, mais fácil ainda é impedir que aconteça. O tempo passa e você vai viver esperando o que? Dias melhores

Legado de miséria

D. Cacilda é uma senhorinha octogenária, muito frágil e humilde, mãe de nove filhos. Conseguiu, sob todas as dificuldades, torná-los homens e mulheres adultos. E com sua sabedoria ensinou-lhes as coisas certas da vida e o que é bom ou ruim. Seus filhos, todos casados, com suas ocupações e trabalhos, vivem correndo. D. Cacilda tem também muitos netos, talvez mais de 30, dentre os quais muitos já adultos e até casados. Mas, infelizmente, apesar dessa família tão numerosa de D.Cacilda, não escapa a senhorinha à solidão. D. Cacilda já se faz viúva há alguns anos e vive solitária em sua casinha, a relembrar de seus longos e passados anos ao lado de seu amado e companheiro marido. Sua modesta casa sempre foi o lar acolhedor para qualquer pessoa. E nunca houve quem ali não se sentisse confortado. Mas a vida tem seu ciclo. D.Cacilda, já tão frágil caiu doente, de cama, totalmente debilitada e dependente. Os anos pesaram em seus ombros já bastante arqueados. Mas que bom, ela tem tanto