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quarta-feira, 7 de julho de 2010

"Vai, poeta...rompe os ares"

Era num dia sombrio.....


Quando um pássaro erradio

Veio parar num jardim.

Aí fitando uma rosa,

Sua voz triste e saudosa,

Pôs-se a improvisar assim.
"ó Rosa, ó Rosa bonita!

Ó Sultana favorita

Deste serralho de azul:

Flor que vives num palácio,

Como as princesas de Lácio,

Como as filhas de 'Stambul.



Corno és feliz! Quanto eu dera

Pela eterna primavera

Que o teu castelo contém...

Sob o cristal abrigada,

Tu nem sentes a geada

Que passa raivosa além.



Junto às estátuas de pedra

Tua vida cresce, medra,

Ao fumo dos narguillés,

No largo vaso da China

Da porcelana mais fina

Que vem do Império Chinês.



O Inverno ladra na rua,

Enquanto adormeces nua

Na estufa até de manhã.

Por escrava - tens a aragem

O sol - é teu louro pajem.

Tu és dele - a castelã.



Enquanto que eu desgraçado,

Pelas chuvas ensopado,

Levo o tempo a viajar,

- Boêmio da média idade,

Vou do castelo à cidade,

Vou do mosteiro ao solar!



Meu capote roto e pobre

Mal os meus ombros encobre

Quanto à gorra... tu bem vês! ...

Ai! meu Deus! se Rosa fora

Como eu zombaria agora

Dos louros dos menestréis!. . .


Então por entre a folhagem

Ao passarinho selvagem

A rosa assim respondeu:

"Cala-te, bardo dos bosques!

Ai! não troques os quiosques

Pela cúpula do céu.



Tu não sabes que delírios

Sofrem as rosas e os lírios

Nesta dourada prisão.

Sem falar com as violetas.

Sem beijar as borboletas,

Sem as auras do sertão.



Molha-te a fria geada...

Que importa? A loura alvorada

Virá beijar-te amanhã.

Poeta, romperás logo,

A cada beijo de fogo,

Na cantilena louçã.



Mas eu?! Nas salas brilhantes

Entre as tranças deslumbrantes

A virgem me enlaçará

Depois cadáver de rosa

A valsa vertiginosa

Por sobre mim rolará.



Vai, Poeta... Rompe os ares

Cruza a serra, o vale, os mares

Deus ao chão não te amarrou!

Eu calo-me - tu descansas,

Eu rojo - tu te levantas,

Tu és livre - escrava eu sou! ...


Fábula: O pássaro e a flor - Os escravos
Castro Alves