sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Quem tem juízo?




O mais esperto dos homens é aquele que, pelo menos no meu parecer, espontaneamente, uma vez por mês, no mínimo, chama a si mesmo asno..., coisa que hoje em dia constitui uma raridade inaudita. Outrora dizia-se do burro, pelo menos uma vez por ano, que ele o era, de fato; mas hoje... nada disso. E a tal ponto tudo hoje está mudado que, valha-me Deus!, não há maneira certa de distinguirmos o homem de talento do imbecil. Coisa que, naturalmente, obedece a um propósito.
Acabo de me lembrar, a propósito, de uma anedota espanhola. Coisa de dois séculos e meio passados dizia-se em Espanha, quando os Franceses construíram o primeiro manicómio: 

«Fecharam num lugar à parte todos os seus doidos para nos fazerem acreditar que têm juízo». 
Os Espanhóis têm razão: quando fechamos os outros num manicômio, pretendemos demonstrar que estamos em nosso perfeito juízo.
«X endoideceu...; portanto nós temos o nosso juízo no seu lugar». 
Não; há tempos já que a conclusão não é lícita.


Fiodor Dostoievski - Diário de um Escritor

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Revoada




"Somos donos de nossos atos,
mas não donos de nossos sentimentos;
Somos culpados pelo que fazemos,
mas não somos culpados pelo que sentimos;
Podemos prometer atos,
mas não podemos prometer sentimentos...
Atos sao pássaros engailoados,
sentimentos são passaros em vôo"
--Mário Quintana

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A imensa alegria de servir



Toda natureza é um anelo de serviço.
Serve a nuvem, serve o vento, serve o sulco.
Onde houver uma arvore para plantar,



planta-a tu;
onde houver um erro para corrigir,
corrige-o tu;
onde houver uma tarefa que todos recusem,
aceita-a tu.



Sê quem tira
a pedra do caminho,
o ódio dos corações
e as dificuldades dos problemas.



Há a alegria de ser sincero e de ser justo;
há, porém, mais que isso,
a imensa alegria de servir.



Como seria triste o mundo
se tudo já estivesse feito,
se não houvesse uma roseira para plantar,
uma iniciativa para lutar!



Não te seduzam as obras as obras fáceis.
É belo fazer tudo
que os outros se recusam a executar.



Não cometas, porém, o erro
de pensar que só tem merecimento executar
as grandes obras;
há pequenos préstimos que são bons serviços:
enfeitar uma mesa.
arrumar uns livros.
pentear uma criança.
Aquele é quem critica,
este é quem destrói,
sê tu quem serve.



O servir não é próprio dos seres inferiores:
Deus, que nos dá fruto e luz,
serve.
Poderia chamar-se: o Servidor.
e tem seus olhos fixos em nossas mãos
e nos pergunta todos os dias:
- Serviste hoje?





Gabriela Mistral, poetisa chilena (1889-1957 )

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A intensa intenção de ser



“ Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silencio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. 

Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”

Cora Coralina

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A Luz que há em nós



 Chegou o dia em que o fósforo disse à vela:
-- Eu tenho a tarefa de acender-te.
Assustada a vela respondeu:
-- Não, isto não! Se eu estou acesa, então os meus dias estão contados. Ninguém vai mais admirar a minha beleza.
O fósforo perguntou:
-- Tu preferes passar a vida inteira, inerte e sozinha, Sem ter experimentado a vida?
-- Mas queimar dói e consome as minhas forças, sussurrou a vela insegura e apavorada.
-- É verdade, - respondeu o fósforo - Mas é este o segredo da nossa vocação. Nós somos chamados para ser luz! O que eu posso fazer é pouco. Se não te acender, eu perco o sentido da minha vida. Eu existo para acender o fogo. Tu és uma vela: tu existes para iluminar os outros, para aquecer. Tudo o que tu ofereceres através da dor, do sofrimento e do seu empenho será transformado em luz.. Tu não te acabarás consumindo-te pelos outros. Outros passarão o teu fogo adiante. Só quando tu te recusares, então morrerás!
Em seguida, a vela afinou o seu pavio e disse cheia de expectativa:
-- Eu te peço, acende-me.

domingo, 4 de outubro de 2009

Cada um na sua concha


Um pequeno caracol que vivia perto do oceano notou com inveja a grande e bonita concha em que a lagosta vivia.
-- Que maravilhoso palácio a lagosta carrega em suas costas! Eu desejaria viver em seu lugar -- lamentou o pequeno caracol.
-- Oh, como meus amigos me admirariam nesta concha!
De repente, algo aconteceu. O invejoso caracol viu a lagosta deixar sua concha para desenvolver-se em outra, maior. Ao ver a concha da lagosta, vazia e abandonada na praia, o caracol pensou:
-- Agora meu desejo será realizado.
E ele proclamou a todos os seus amigos que agora iria morar em um majestoso palácio. Os pássaros e os animais então assistiram o caracol soltar-se de sua pequena concha e orgulhosamente rastejar para a concha da lagosta. Ele soprou, bufou, tornou a soprar até perder o fôlego esforçando-se para adaptar-se à nova concha. De nada adiantou porque era muito pequeno para ajustar-se dentro da concha da lagosta. Ele só parou de tentar quando se viu completamente exausto. Aquela noite ele morreu porque a concha grande e vazia estava muito fria.
Um velho e sábio corvo disse, então, para os corvos mais jovens:
-- Prestem atenção! é este o resultado da inveja. O que vocês têm é o bastante. Sejam vocês mesmos e livrem-se de problemas. É melhor ser um caracol em sua pequena concha confortável do que ser um pequeno caracol em uma concha grande e congelar até a morte